Thursday, October 05, 2006

Lágrima de preta

A maioria das vezes sinto que não percebo nada de poesia e de facto não sei, porque o nome António Gedeão é algo muito distante. Nem tão pouco sei se os direitos de autor já expiraram.
Báh! Para ser sincero nem sei se é vivo.
Mas até um bruto como eu de vez em quando se depara com algo tão belo noutro blog, que sente um desejo enorme de fanar e trazer para aqui.
Já li várias vezes e continuo a adorar.
António, perdoa-me por não saber quem foste.



Encontrei uma preta

que estava a chorar

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.



Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.



Olhai-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.



Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.



Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:



nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.



(António Gedeão)

1 comment:

Manel Furtado said...

Quando estudava na preparatória de S. Julião da Barra e ainda não gostava da minha língua tive de procurar explicações de Português para ultrapassar o problema de ter umas oligofrénicas (com poucas excepções) a tenatrem ensinar-me a minha lingua. POesia dizia-me pouco: de acordo com o que diziam era saber decompor, escrever respostas bonitas, saber contar a métrica, fazer o esquema da rima e debitar o que se tinha decorado. Sempre me recusei a estudar semelhantes matérias. Sempre as odiei e considero-as na maior parte dos casos um absurdo anacrónico. Quando fui para a minha primeira explicação uma boa professora perguntou-me qual era o meu problema se as minhas notas não eram más. Expliquei que gostava de ciências e que abominava poesia (quer dizer a sua análise tal como estava estabelecido). Foi nessa altura que ela me deu este poema para ler. Gostei mas o meu trauma era tal que não me tocou como me toca hoje. E viva a poesia que eu tanto amo e que tanto tento escrever sem mostrar. Viva Gedeão (acoselho a antologia poética que desenvolveu de todos os periodos da literatura portuguesa). Que amem como eu o que foi escrito por Oneil, Herberto Helder, Cesário, Antero, Alba... e todos os óbvios grandes vultos. Aproveita enquanto é tempo valter! Atira-te ao que de melhor se escreveu na nossa língua.